V - Parodiando Saramago: A Ilha Desconhecida

Certa vez, um homem comum, nada diferente dos outros homens comuns, foi ao seu governante, o rei, fazer reivindicações – assim como ainda se faz hoje. Queria insistentemente um barco, ficaria plantado por dias sem fim na frente de seu governo para conseguí-lo. Novamente, assim como nos dias atuais (talvez uma incômoda herança), a burocracia era de desmotivar até mesmo os mais convictos. Os pedidos populares eram entregues às pessoas que poderiam ou não passá-los adiante, de acordo com o humor.

Bem, caro leitor, pois tal homem estava tão convicto de querer um barco (talvez fosse pura vontade de atordoar seu rei e protestar, mas nunca saberemos) que, inacreditavelmente conseguiu uma audiência com o rei. Ao contrario de sua burocracia – e também de seu povo – o rei não tinha tempo por perder (é verdade que mais por suas vaidades do que necessidades). Perguntou prontamente: “Quem é você e o que quer?”; “Me dá um barco!” – quase que impôs o nosso protagonista de poucos modos, pouca cultura e poucas formalidades – culpa do sistema educacional do reino. “Espero que tenha um bom motivo para pedi-lo”, instigou com ironia o monarca, “Quero conhecer ilhas desconhecidas”, “Creio que isso seja impossível, uma vez que conhecemos todas”, “Você tem medo do desconhecido, só porque ninguém o conseguiu ainda, não significa que seja impossível”. O rei parecia relutante, mas considerou dar tal barco quando ponderou como poderia repercutir caso o negasse. O rei também renunciou a posse das ilhas (não sem lutar um pouquinho) e encaminhou o homem ao porto para que recebesse um barco.

O problema em chegar ao porto é que, além da capital do reino se situar no centro do território, deveria carregar junto em sua jornada a mulher da limpeza – primeira pessoa que atendeu nosso protagonista na busca pelo barco. “Contenção de despesas”, palavra do rei. A capital do reino era longe do litoral, longe dos grandes centros, longe de tudo e ninguém tinha certeza do porquê. Alguns diziam que era por proteção do território, outros diziam que era porque os reis anteriores não queriam ouvir os protestos populares. A única certeza é que a capital do reino era obra faraônica, produto da vaidade dos reis. Talvez o nosso herói buscasse uma ilha desconhecida por exílio. Em todo caso, o homem conseguiu seguir rumo ao porto, chegando lá conheceu o capitão, recebeu barco e faltavam apenas os preparativos para zarpar.

A ex-mulher da limpeza, quando viu o barco, gritou “É o meu! É o meu!”, o homem nada disse – apenas levantou sua sobrancelha direita em descrença. Achou melhor buscar tripulação. Passou todo um dia fora, enquanto a mulher parecia a responsável do barco e quanto mais passava o tempo, mais se iludia. O homem chegara à noitinha: “Mulher, ninguém compra nossa causa, partiremos sozinhos amanhã de manhã”. O céu já se cobria por um manto negro e logo dormiram.

Não se sabe bem se o que vem a seguir aconteceu de verdade ou foi puro delírio do homem, mas quando acordou havia uma tripulação à sua espera do lado de fora, não sabiam que buscariam uma ilha que ninguém conhece, pois nosso futuro capitão se prontificou em perguntar: “Quem são vocês, o que querem por aqui?”, “Apenas sabemos que temos que sair daqui”, responderam.

Zarparam, e o homem enciumava-se porque sua mulher da limpeza encontrava-se rodeada de homens pelo navio. Logo mais tarde, lhe perguntaram, “Aonde vamos?”, “A descobrir novos lugares, ilhas desconhecidas!” – respondeu satisfeito o homem, mas acabara por instaurar o motim. Sem pensar duas vezes, atiraram o homem e a mulher ao mar. Estavam à deriva, desacordados. Passaram-se horas, até mesmo (quem sabe) dias. O homem acordou, viu a mulher sentada na orla, e via-se numa minúscula ilhotinha; se dirigiu a mulher e perguntou: “Onde estamos? Que faremos?”. A mulher, com um olhar melancólico, respondeu: “Tudo que sei é que não estamos nos mapas, que quero sair daqui e nenhum rei por perto há para pedir-lhe um outro barco”.

Mal sabiam os náufragos que estavam em uma ilha inóspita de seu antigo reino, mal supervisionada e perdida no território colossal, assim como um pequeno barco no vasto oceano, esquecida.

IV - Convicção e territorialidade

Era um homem, aparentando seus cinqüenta anos, magro e com olheiras profundas que mostravam mais a insanidade que o cansaço. Vivia dentro da casa, não saia de seu perímetro. Não poderia existir fora dela. Era seu espaço.

Um dia um segundo homem aparece na casa. A aparência de uma pessoa mais nova, mas com as mesmas manias: alegava não poder existir fora do espaço compreendido pela construção.

O mais velho certamente não cederia. O mais novo estava convicto que era seu lugar. Para ambos, apenas um poderia existir na mesma dimensão ao mesmo tempo dentro da casa. Correram e iniciaram uma briga. Saíram na mais louca disparada pela casa. Ora um perseguia, ora esquivava – enquanto gritavam que não poderiam coexistir no mesmo espaço.

Após algum tempo, uma pessoa ouve a algazarra na casa e a rompe adentro para descobrir o que acontecia e, ao ver tamanha discussão bizarra, sai na mesma velocidade com a que entrou! Deixara a porta aberta enquanto os dois continuavam a defender sua existência dentro do único lugar que poderiam existir: o perímetro da casa. Durante uma das perseguições o homem mais velho tropeça e capota para fora da construção. A briga cessou. O homem mais novo, com ar de conquistador, era o feliz dono do terreno da casinha, o qual nunca mais sairia. O outro, mais velho, ao se ver fora casa percebeu que acabara de violar aquilo que acreditava: inacreditavelmente existia fora da casa. Respirava normalmente, pensava, se sentia bem e não sumira. Saiu pela rua gritando decretando que o mundo era dele: “É meu! Ele é meu! É todo meu!”

III - Ócio mental

Como eu adoraria que viesse um tema pronto, só por hoje. A falta de inspiração está em alta. Então vou falar sobre isso. Engraçado que cada vez que passo uma ruela esquecida no centro da cidade, antes de dormir, ou entrando no banho, aparecem sem explicação nenhuma textos, discursos inteiros, completos, até mesmo maravilhosos, prontos para serem escritos. A sensação que me dá é que eles chegam tão prontos que seria só tirá-los cuidadosamente com uma forma da cabeça. Mas passam-se alguns minutos e nem lembraças são mais. Nem soam tão perfeitos. É triste. Você se senta para escrever. Tanto a falar com o mundo, discutir o momento do futebol, a última lambança do nosso governo querido, tinha tiradas maléficas e que qualquer um diria (Sensacional!) e, de repente, elas não estão mais lá. A imaginação aflora em momentos propícios, mas não à escrita, senão ao seu bem estar. Duvida?
Nas ocasiões em que as histórias fantásticas vêm à tona, repare que seu corpo quase sempre está condicionado a uma atividade, no mínimo, prazerosa. Andar por uma rua, distraidamente, com a cabeça submersa em pensamentos. Ou momentos antes de dormir - ninguém consegue ter as famosas "viagens pré-dormência" quando se está morto de sono, e sim, quando vai se deitar tranqüilmente e ainda dispõe de alguns momentos a sós com a imaginação. Outro fator comum é o ócio durante tais atividades. Exigem pouco esforço mental (andar, esperar cair no sono...), e, só digo isso por causa do paradoxo que isso propõe. Uma alta carga imaginativa seria conseqüencia dos momentos de ócio mental?
nota e revisão do autor: vou indo dormir! Como queria ter um notebook!

II - Segunda postagem

Gostaria de pedir paciência aos amigos leitores, (não que eles tenham sido convocados a participarem), porém esta postagem se fez necessária para a correção do alinhamento do meu maravilhoso blog. A tecnologia, afinal de contas, é uma obra de arte. A sua técnica que é o problema. Grato pela cooperação!
editado: não é que funcionou?! [:)] God bless arbitrary technology!

I - Urbe Alarma Crônicas

Primeiro contato! Além de me dedicar mais aos blogs, resolvi padronizar os estilos. Urbe Alarma, a idéia original e de tirinhas; e Urbe Alarma Crônicas, a expansão escrita do escracho urbano/social/atual/blá blá blá! Claro que, como ninguém é de ferro, peço que me deixem arrumar o layout primeiro e hoje ainda temos o "contratempo" de Liverpool x Milan. A seguir, cenas dos próximos capítulos.
Descobriremos também até quanto o vosso humilde autor sabe contar em algarismos romanos!